A “Nova Roma” e os migrantes
A “Nova Roma” e os migrantes
Nas últimas vezes em que se dispôs a escrever, claro, apaixonadamente, como sempre, sobre o povo brasileiro, o antropólogo Darcy Ribeiro, registrou que nós, os brasileiros, somos um “povo síntese”, mesclado na carne e na alma, feliz e orgulhoso por sê-lo, já que por nós a mestiçagem jamais foi vista como crime ou pecado. Segundo o mestre Darcy, fizemo-nos como uma civilização “desindianizando o índio, desafricanizando o negro, deseuropeizando o europeu e fundindo suas heranças culturais”. Constituímos, segundo ele, uma “Nova Roma”, civilização cosmopolita, múltipla, assoberbada, com a marca da diversidade, única, diversa, múltipla; mas única, absolutamente nova em suas compleições físicas ou comportamentais.
Mesmo nascendo das ações tresloucadas de homens que se julgavam portadores de uma missão divina, europeus que acreditavam serem dotados de uma visão profética daquilo que poderia suceder aos pretos e vermelhos selvagens e infiéis, fizemo-nos uma civilização de novo tipo, tolerante e flexível nas suas ações e gestos, capaz de assimilar convivências e inovações com a mesma facilidade com que organizamos uma festa. Acolhemos minorias expatriadas e perseguidas, patriotas violentados em suas próprias nações, refugiados de guerras fratricidas e imperialistas, trabalhadores excluídos dos mercados em suas próprias nações, mulheres discriminadas e tatuadas pelo ferrete da desonra. Recebemos povos dos mais diferentes lugares da terra com suas crenças, valores e hábitos que, não só aceitamos como assimilamos e partilhamos. Cometemos menos falhas com os estrangeiros que por aqui aportam do que com os nossos irmãos ameríndios, o que é uma lástima.
Mas, porque lembrarmos hoje do professor Darcy Ribeiro?
Acontece que os jornais estão noticiando que o governo espanhol estuda a possibilidade de pagar – não sei se a expressão utilizada foi pagar ou indenizar – os brasileiros e outros imigrantes LEGAIS que vivem na terra de Miguel de Cervantes para que eles retornem aos seus países de origem. Alguém chegou a mencionar um valor: 10.000 euros, quantia considerada suficiente para que um marroquino, por exemplo, possa começar um negócio em seu país.
Penso que nós, brasileiros, sentir-nos-íamos envergonhados e entristecidos se nosso governo, qualquer que fosse a sua coloração ideológica, fizesse “convite” semelhante aos nossos amigos, vizinhos, colegas de trabalho ou parentes espanhóis.
Claro que este sentimento não nos tocaria tanto se fossem “convidados” à partida o banco Santander, a Telefônica, a Mapfre, as editoras Planeta e Santillana, e outras empresas de proprietários espanhóis.Se tal acontecesse, talvez organizaríamos uma festa semelhante às que estamos assistindo para celebrar o centenário da chegada dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil.
E por falar nisso, abraços aos meus amigos Gonzales, Miguel, Hernandes, Diego; e também para o Sérgio Maruno, Douglas, Hélio, Chico, Daniel, ... Falamos depois da saga da imigração japonesa.