AQUECIMENTO GLOBAL E O IMPÉRIO DAS MERCADORIAS
AQUECIMENTO GLOBAL E O IMPÉRIO DAS MERCADORIAS
Parte I
Quando no início deste ano, governantes, empresários e banqueiros de diversos países do mundo chegaram ao cantão suíço de Grisons para participarem do Fórum Econômico Mundial de Davos, uma desagradável surpresa os aguardava – e não eram as “hordas” de manifestantes anti-globalização, habituais contestadores do evento. O inesperado havia sido reservado pela natureza: as belas montanhas da região estavam descobertas das alvas camadas de gelo que as envolvem no inverno. Apropriado desencanto: os homens da produção viam-se diante de um dos efeitos colaterais do crescimento econômico. A amarga constatação de que a produção emprega, difunde o conforto e enriquece, mas também polui, levou à ameaçadora conclusão de que a poluição aquece e liquefaz a neve, modifica paisagens e ameaça a vida humana.
Desde alguns meses antes daquele janeiro de 2007, quando ecodesastres anunciavam aquilo que os ambientalistas – tidos até então como esquerdistas utópicos e catastrofistas – temiam e denunciavam há décadas, os termômetros já estavam tirando o sono de autoridades políticas, empresários, especuladores, especialistas em climatologia e da população em geral, notadamente nos países mais industrializados do mundo, como os Estados Unidos da América e os gigantes europeus. As mudanças climáticas – efeito mais evidente do aquecimento global – parecem ter acordado todos aqueles que hesitavam em se compromissar com as políticas de preservação do meio ambiente, inclusive governantes, empresários e banqueiros de todo o mundo.
O estardalhaço propagado pela mídia, em inúmeros artigos, matérias e entrevistas trouxe a falsa idéia de que as preocupações com os problemas climáticos são recentes. O processo do aquecimento global pode ser considerado historicamente coevo às últimas gerações, mas as preocupações são bem antigas. Poucos sabem que a chamada Questão Ambiental vem importunando alguns cientistas há quase dois séculos. Em 1827, por exemplo, o físico e matemático francês Jean-Baptiste Fourier (1768-1830), estudioso dos problemas relativos à condução térmica, já mencionava o “efeito estufa” em um trabalho com plantas adaptadas a climas quentes e cultivadas em estufas de vidro no clima frio da Europa. Segundo Fourier, o fenômeno observado naquelas estufas poderia ser reproduzido em maior escala na atmosfera terrestre.
Em 1860, o físico inglês John Tyndall (1820-1893) diagnosticou que as grandes variações na temperatura média do planeta poderiam estar relacionadas às concentrações de dióxido de carbono na atmosfera e, ainda, no mesmo século XIX, o químico sueco Svante August Arrhenius (1859-1927) concluiu que se fosse duplicada a concentração de CO2 na atmosfera a temperatura do planeta poderia aumentar de 5º a 6º C. Desde então, as manifestações científicas acerca dos problemas relacionados ao meio ambiente vem aumentando em número e em profundidade nos seus levantamentos e conclusões. O século XX trouxe consigo, além de guerras e morticínios, novos ramos das ciências mais diretamente interessados na incômoda questão. Dos laboratórios e departamentos das universidades o tema passou a pautar discussões legislativas em todo o mundo, recheou as primeiras páginas dos jornais e as chamadas dos noticiários de rádio e televisão até bater às portas dos cidadãos comuns, dos mortais que acreditam ser felizes porque trabalham para consumir um pouco daquilo que o “sistema mundial produtor de mercadorias” disponibiliza para todos.
Vale lembrar que o relatório dos cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), divulgado no último dia 2 de fevereiro, concluiu que a ação humana é a maior responsável pelo aquecimento do planeta. Os lunáticos ecologistas esquerdistas e utópicos já denunciavam isso, assim como a História.
Categoria: SOCIED, CULT, ESP e MEIO AMBIENT
Escrito por Fernando Gelfuso às 16h26
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AQUECIMENTO GLOBAL E O IMPÉRIO DAS MERCADORIAS
AQUECIMENTO GLOBAL E O IMPÉRIO DAS MERCADORIAS
Parte II
O homem vem provocando alterações ininterruptas e substanciais nos ecossistemas desde que aprendeu a controlar o fogo, há mais de 150 mil anos. Já naqueles tempos os grupos humanos mantinham com a natureza uma relação predatória, parasitária mesmo, mas sem dilapidar os recursos naturais. Não havia produção, e, quando houve, ela estava voltada para a satisfação das necessidades biológicas diárias mais essenciais dos seus membros, a alimentação, o vestuário e o repouso. A natureza incumbia-se de prover aqueles homens caçadores e coletores que sequer conheciam a propriedade. Mesmo nas mais antigas civilizações, como Egito, Índia e China, já conhecedoras da propriedade e produtoras de excedentes comercializáveis, as intervenções no espaço natural eram diminutas. A produção, quase sempre controlada e armazenada pelo Estado, apesar de infinitamente maior, era voltada ainda para a satisfação das necessidades humanas fundamentais. Mesmo que uma parte significativa do produto do trabalho humano fosse apropriada pelos grupos controladores da máquina estatal, ainda assim a produção não devastava o espaço geográfico.
Ocorre que na Pré-História, na Antiguidade, e mesmo no período que denominamos Idade Média, o ser humano não havia inserido nas suas formas de organização uma instituição, ou como já dizem alguns cientistas sociais, uma entidade chamada Mercado, este objeto de culto das sociedades humanas dos últimos séculos, para as quais ele parece encerrar sentimentos inerentes aos seres humanos – afinal ele costuma ficar tenso, nervoso, sensível, agitado, calmo, aflito, ansioso e, por vezes, angustiado.
A economia de mercado, que na Idade Moderna substituiu a economia de consumo da Idade Média européia, produziu sentimentos e comportamentos que alteraram significativamente os rumos do processo civilizatório. A moda, por exemplo, motor que faz avançar o “Império do Efêmero”, do breve, do instantâneo, do descartável, do belo e do feio, do “por dentro” e do “por fora”, do incluso e do excluso, nasceu.
Categoria: SOCIED, CULT, ESP e MEIO AMBIENT
Escrito por Fernando Gelfuso às 16h24
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AQUECIMENTO GLOBAL E O IMPÉRIO DAS MERCADORIAS
AQUECIMENTO GLOBAL E O IMPÉRIO DAS MERCADORIAS
Parte III
Foi ainda nos primeiros tempos da Idade Moderna que o homem fundador da economia de mercado despertou ou, mais grave, fez recrudescer nas sociedades humanas o sentimento do individualismo que, inoculado na alma das pessoas e associado à idolatria da moda, fez despertar o gosto pelo supérfluo. O hedonismo, a determinação do prazer como bem supremo, compunha o leque de princípios do homem moderno-renascentista. Desde então para ser feliz e se destacar dentro do seu grupo o homem (um, singular) deveria se mostrar belo na sua forma, apresentar-se de acordo com os padrões de elegância determinados pelo mercado da moda.
No século XVIII, anos 1700, o movimento iluminista levou aqueles princípios – individualismo e hedonismo – às últimas conseqüências. A Revolução Industrial deu a sua contribuição melhorando em quantidade, qualidade e diversidade a produção destinada ao mercado. Estava assim constituído o “Império das Mercadorias”, em que as coisas passaram a ser glorificadas.
Desde então, vestimentas, alimentos exóticos, meios de locomoção, utensílios domésticos, objetos de higiene pessoal, instrumentos destinados à comunicação, utilidades do processo educacional, isto é, tênis e camisetas, lanches e petiscos enlatados e ensacados; automóveis, motocicletas e bicicletas, facas e aparelhos elétricos, escovas de dente à pilha e chicletes; aparelhos celulares e computadores, lapiseiras decoradas, canetas, réguas e borrachas aromatizadas, foram elevados à condição de bens necessários à vida humana. Mais do que isso, têm sido idolatrados ao ponto de serem quase que “humanizados”, enquanto que os homens acabaram “coisificados”. Talvez, por isso, alguns humanos matam seus semelhantes por causa de um tênis ou de um aparelho celular. Assim a mercadoria fez-se mais importante do que o homem.
Talvez as discussões acerca das questões ambientais não tenham que passar, necessariamente, antes pela substituição ou redução dos níveis de consumo de combustíveis, mas sim pelas buscas de alternativas para o nosso modelo de civilização. Parece fundamental, em princípio, que se altere a mentalidade do homem consumidor.
Assustada, a comunidade internacional parece agora querer empenhar-se no sentido de buscar soluções dentro do próprio sistema, algo como uma forma de “capitalismo ecológico”. Neste caso, resta-nos perguntar de que forma o sistema irá promover a conciliação necessária para atingir as metas, ou seja, como reduzir as emissões de gases poluentes, mantendo os níveis da acumulação de capitais exigidos pela grande burguesia mundial? Mercadorias trazem conforto, com o inconveniente de que também se transformam em lixo.
Penso que será muito difícil convencer a grande burguesia mundial a aderir a causa ecológica. Quanto aos governos, sabemos do comprometimento que têm com as camadas dominantes das sociedades que representam. O que interessa para o sistema são os níveis de produção e de consumo dos países
Cabem, assim, algumas indagações: quem vai assumir a responsabilidade pela divulgação ou difusão de novos hábitos não consumistas a esta geração de jovens que trocam de celular mensalmente e colecionam tênis, roupas, canetas e penduricalhos das mais diferentes marcas e modelos? E quanto às futuras gerações? Como irão se comportar os grandes complexos industriais frente à nova ordem cultural do “capitalismo ecológico”?
Só mais uma questão: será que o tratamento dispensado pelos Estados representantes dos grandes conglomerados industriais e financeiros aos jovens consumistas insaciáveis do ocidente será o mesmo que deram às populações dos países muçulmanos que resistiram sempre à instalação dos “shoppings centers” em suas terras? Somente a História poderá dar as respostas a estas e mais a uma infinidade de indagações.
Categoria: SOCIED, CULT, ESP e MEIO AMBIENT
Escrito por Fernando Gelfuso às 16h19
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